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	<title>Paróquia Nossa Senhora de Fátima &#187; Pensando em tempos</title>
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		<title>A Santidade e a Medida da Maldade</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Jan 2010 11:37:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />O músico Renato Russo, em uma de suas músicas, disse que “há tempos nem os santos tem ao certo a medida da maldade”, para descrever o estado de banalização do mal e da violência nos dias de hoje. E de fato, por paradoxal que pareça, são os santos os que tem a melhor medida da maldade do mundo, por serem, em geral, suas principais vítimas. A opção cristã de santidade o fez assim. No Antigo Testamento a santidade era a separação, aquilo que estava reservado para poucos, era o próximo de Deus e o distante dos homens comuns. O Templo de Jerusalém é a materialização deste conceito. Há um crescente de santidade que vai do pátio dos gentios, na parte mais externa, passando pelo átrio das mulheres (para as mulheres israelitas), pelo átrio dos israelitas (só para os homens), chegando ao Santuário (reservado aos sacerdotes) e, finalmente, o Santo dos Santos, o núcleo do Santuário onde só o sumo sacerdote podia entrar em algumas ocasiões do ano.<br />
<br />
<span id="more-720"></span>Quando Jesus recomenda que sejamos santos como o Pai é santo e, mais ainda, quando o Evangelho narra que o véu do templo é rasgado de alto a baixo no momento de sua morte, um novo conceito de santidade é forjado. Um conceito mais amplo e includente, segundo o qual o santo não mais é aquele separado do mundo, mas o que nele está imerso e imiscuído como o sal da terra e o fermento na massa, para “Cristificá-lo”.<br />
<br />
Os primeiros cristãos absorveram de forma magnífica esta nova forma de ser santo. Há um texto dos primeiros anos do cristianismo, de autoria desconhecida, que de tão belo e pleno de sabedoria foi incorporado à Liturgia das Horas: a Epístola a Diogneto. Nela se lê uma descrição da imagem que os cristãos do segundo século faziam de si mesmos. Eis o que diz o capítulo 5:<br />
<br />
<em>Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; (&#8230;)</em><br />
<br />
Os cristãos estão em meio ao mundo, usam o mesmo idioma e, basicamente, os mesmos costumes. Destarte, vivem nas mesmas cidades e poderiam passar desapercebidos no meio da multidão, não fosse o fato de possuírem um modo de vida admirável. Paradoxalmente, parte da essência deste modo de vida está na graça de perceber que todas as pátrias são passagens, onde são forasteiros, onde, não obstante o tempo de sua permanência, são apenas estrangeiros, provisoriamente diluídos no mundo para operar a transformação deste.<br />
<br />
A idéia de uma santidade que se mistura e transforma é firmemente presente no início do capítulo 6: “Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo.” Estar junto ao mundo e transformá-lo pelo seu testemunho admirável eis o que os primeiros cristãos, representados pelo autor da Epístola, pensavam ser sua missão no mundo.<br />
<br />
Temos relatos deste testemunho admirável dos primeiros santos exatamente quando adquiriram a medida exata da maldade do poder presente em qualquer grande sistema político. Os incontáveis mártires sacrificados pela necessidade de entretenimento e de reafirmação da autoridade divina dos imperadores foram semente e adubo para o germinar do que os romanos chamavam de “seita maléfica”. Para estes, o martírio dos cristãos representava a repressão à diferença, o exemplo contra a desobediência civil e, me parece o mais perverso do processo todo, entretenimento para a massa. Era um meio de manter com os cidadãos de Roma menos favorecidos pelas conquistas uma relação amistosa, evitando que a plebe se rebelasse contra seus patronos. Eram tempos de “Panem et Circenses”.<br />
<br />
Os cristãos entendiam o martírio de forma bem diferente, era uma forma corajosa de converter a perversidade de seus algozes em testemunho e redenção. Os mártires e confessores, os que padeciam penas por assumirem o cristianismo, entendiam-se muito próximos do Reino dos Céus, tão próximos que quer vivessem, quer morressem, seu destino estava indelevelmente ligado a Cristo. Destarte, o sofrimento não era, de modo algum, resultado do abandono divino, antes era sinal da chance de manifestarem a fé inabalável na cidadania celeste e na proximidade da pátria vindoura.<br />
<br />
Modernamente, apesar de ainda termos mártires a nos indicar que a causa de Deus pode trazer caminhos dolorosos de se trilhar, às vezes fico com a impressão de que perdemos a medida do preço a pagar por ser cristão. Ainda que hoje, ao menos no Ocidente, o Estado não mate mais ninguém por se declarar cristão, parece que não há mais sacrifícios a fazer para se assumir a ética de Cristo. Fui a uma formatura dia desses em que os oradores não paravam de falar em ética. Era a ética profissional para lá, a ética cristã para cá, mesmo os que costumeiramente agem de maneira sórdida, se punham a falar em ética até não poder mais, jogando todo o peso da lisura nos ombros dos jovens formandos.<br />
<br />
Além de um pouco irritado com a coisa toda, fiquei pensando como banalizamos o termo “ética”, como se ela não tivesse um custo. Falamos como se a dor de assumir escolhas certas fosse nula, como se o caminho da ética, e em especial da ética cristã, fosse o mais calmo e plácido a ser trilhado. Trata-se da fé, com muita freqüência, como se a senda da crença trouxesse favores materiais e não dilemas morais perante o mal, como se não houvesse necessidade de sacrificar nada em prol das escolhas que fazemos.<br />
<br />
Em certo sentido, acho que muitos de nós se entendem um pouco na contramão do que diz a Epístola a Diogneto, estamos no mundo nos acomodando a ele. Pode ser que estejamos tentando evitar a nossa cota de martírio, algo que, no fundo, a maioria de nós nunca entendeu plenamente. Criamos para nós uma visão de Deus que é muito confortável. Não que Deus não seja bondoso e benigno, eu que o diga, Ele me fez estar em sala de aula apenas quinze dias após uma delicada cirurgia de extração de tumor cerebral, que durou 8 horas. Mas, da bondade de Deus a um Deus previdente, para quem o sofrimento é sinal de desgraça – no sentido literal da palavra: falta da graça – é um caminho que não sei se deve ser percorrido.<br />
<br />
O salmo 22 diz que “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte nada temerei”. Acho que muitos de nós se acostumaram com a idéia de um Deus que sequer nos permitiria adentrar em uma topografia que pudesse ser chamada de vale da sombra da morte. No entanto, por vários motivos que nos escapam o completo entendimento, Deus permite que trilhemos o caminho que passa entre as montanhas sobre as quais se deita a morte. Passamos por estas situações inclusive por escolhermos a ética de Cristo. Vejamos o exemplo de alguns mártires, para os quais a sombra da morte não era apenas uma metáfora: as flexas para São Sebastião, a espada marroquina para São Berardo e seus companheiros, o punhal do homem que tentava estuprá-la para Santa Maria Goretti ou a morte por inanição em Aushiwtz para Maximiliano Colbe, foram os vales onde a morte lançou sua sombra.<br />
<br />
Nesses momentos, em que temos de seguir firmes sem ver o horizonte, nem ver o sol, já que a morte se interpôs entre nós e a luz, lançando sua sombra nas terras pelas quais caminhamos, é a fé na presença do Pai, o grande sol que brilha além da morte, o que pode nos sustentar. Jesus passou como ninguém por esta trilha, esteve no fundo deste vale, atravessou-o em sua mais longa extensão e com dolorosa morte pairando sobre sua cabeça. Suas pegadas ainda estão marcadas apontando o caminho e encorajando os que parecem ter se perdido.<br />
<br />
Que tenhamos a força do Ressuscitado em nós, para, quando o vale da sombra da morte se colocar a nossa frente, em especial para quando isso acontecer por termos trilhado o caminho da Verdade perante a maldade, possamos com passo firme e seguro, sabendo que além das nuvens escuras da morte (física, psicológica ou moral) que está a lançar sombra sobre nós, brilha o glorioso Sol da Eternidade, que nos ampara em meio às tempestades e nos sustenta nas dificuldades. Foi por isso que os mártires antigos e modernos não se desesperaram diante das dificuldades e da dor, e há de ser assim conosco, ainda que tenhamos de tomar conhecimento da exata medida da maldade.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>As Revoluções e o Cristianismo</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 11:03:20 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />Quando se fala de revolução a primeira coisa que se pensa é em algum tipo de revolução socialista, como a soviética ou a cubana. Porém, há uma outra revolução que pode ser considerada, de certo modo, a mãe das idéias revolucionárias socialistas: é a revolução industrial. As transformações geradas pela produção industrializada foram tantas e tão profundas que mudaram radicalmente a face da sociedade. Nenhuma sociedade que tenha passado pelo processo de industrialização o fez incólume.<br />
<br />
<span id="more-700"></span>Para começar a produção em larga escala gera a necessidade de mão-de-obra abundante e barata, além de um consumo tão amplo quanto a escala de produção. Estas necessidades são antagônicas, se uma parcela substancial da sociedade está trabalhando muito e ganhando pouco, obviamente não terá recursos para consumir. Logo, a produção, em escala cada vez maior, tem que ser enviada para fora da sociedade que a produz, de onde deve vir a matéria-prima para alimentar esta mesma produção. O que cria um sistema imperialista de relações exteriores das nações industrializadas, que, por seu turno, estabelece relações cruéis de dominação, associadas a uma divisão de recursos excludente em escala planetária e, em última instância, duas guerras mundiais.<br />
<br />
Se, do ponto de vista externo as conseqüências da industrialização são perversas, internamente não é muito diferente. As atividades agrícolas tradicionais sofrem dois tipos de alteração. Primeiramente, há a mercantilização da produção agrária, que se volta, em grande medida, para atender as necessidades da produção industrial. O caso da Inglaterra é bastante expressivo, pequenos cultivos foram substituídos por rebanhos de ovinos, que forneciam lã para a indústria têxtil. No Brasil do século XX, temos o desalojamento de cultivos alimentares para dar lugar ao café, à soja e à laranja, exportados para as grandes indústrias alimentícias. A outra alteração é a transformação das relações sociais no universo rural. Sendo derivada da primeira, esta segunda gera um corolário benéfico aos que manipulam o sistema como um todo, a geração de excedente de mão-de-obra nos distritos industriais.<br />
<br />
Voltando à Inglaterra do século XVIII, as transformações de que falamos implicam no que se chamou de “cercamento dos campos ou terras comunais”, isto é, as terras que eram cultivadas por grupos camponeses pobres passaram a ser administradas privadamente por grupos abastados. Isso redunda em êxodo rural, que incha as cidades, criando e mantendo uma farta reserva de mão-de-obra, o que mantêm os salários em queda quase permanente. No Brasil, temos um fenômeno algo semelhante. Nas da década de 1950 até a de 1970, recorrentes crises da pequena agricultura, privada de recursos emergenciais do erário, escoados em quase sua totalidade ao amparo de grandes latifúndios e do agrobusiness, somadas à expedientes como a grilagem (falsificação de títulos de propriedade de terra) e à truculência, empurrou toda uma geração para as cidades, engordando os bolsões de miséria das principais capitais e oferecendo mão-de-obra de baixa qualificação, mas com baixos salários.<br />
<br />
Daí chegamos às idéias revolucionárias: a pauperização dos trabalhadores urbanos no século XIX é um fenômeno presente em praticamente toda a Europa ocidental. As multidões de operários de olhar vazio e andar compassado atravessavam as grandes cidades todas as manhãs e nos finais dos dias. Essas marchas um tanto horrendas, não passaram desapercebidas aos principais intelectuais. De poetas a políticos, muitos perceberam que a pobreza excessiva estava se tornando uma chaga aberta nas cidades. Os pensamentos revolucionários surgiram da observação do sofrimento dos pobres, associado a um pessimismo em relação às iniciativas de distribuição de renda a partir dos ricos, que naquele momento esfolavam seus trabalhadores até o desespero. Um pessimismo não de todo infundado, uma vez que os donos das fábricas impunham jornadas de até 16 horas diárias, a salários tão baixos que os pais tinham que por seus filhos de 7 ou 8 anos de idade para trabalhar, já que seus salários não cobriam os gastos das crianças.<br />
<br />
É possível dizer que o pessimismo de que falamos, associado a um sentimento de indignação e a uma perspectiva fatalista e teleológica da história, tenha gerado movimento revolucionário pautado na violência. Karl Marx foi um dos principais expoentes deste tipo de solução. Sei que falar de Marx é um tabu dentro da esfera católica, mas me parece que Marx estava movido pela ideal correto, o da igualdade entre os homens. Embora estivesse apontando para a solução errada, a violência, estava movido por uma certa dose de compaixão pelo sofrimento do próximo. Por isso, creio que uma das virtudes destes pensadores do século XIX e de seus seguidores no século XX é a de pensar para além de si mesmos. A opção por um projeto coletivo de mundo, presente nos ideais da juventude até a década de 1970, contrasta com o que parece ter sido a vitória da Revolução Industrial. Explico-me.<br />
<br />
A ânsia de consumir também é uma resultante de um dos principais subterfúgios da industrialização: a propaganda. A propaganda é o instrumento que tem como objetivo nos fazer consumir além das nossas necessidades, na verdade, a propaganda cria necessidades. A vitória da Revolução Industrial está na perda de nossos critérios coletivos, as decisões da maioria hodierna são pautadas em critérios exclusivamente umbilicais. Nós, salvo gloriosas exceções, só nos preocupamos com o que é de nosso interesse imediato, o que equivale dizer que o individualismo chegou ao seu ápice em nossos dias.<br />
<br />
Perdemos todos, ateus e cristãos, a visão de uma sociedade mais justa. No máximo entendemos a necessidade de atos de solidariedade, mas perdemos do nosso horizonte a possibilidade de uma sociedade em que a solidariedade seja menos urgente. Em que esta não seja a única possibilidade de sustento de uma grande parte da população mundial. A desigualdade está a tal ponto naturalizada, que sequer pensamos mais seriamente em por fim a ela. Essa não é uma conversa de socialista démodé. Os documentos da Igreja, como a <em>Rerum Novarum</em>, falam na redução do abismo entre trabalhadores e patrões através do senso de justiça dos últimos para com os primeiros. Não é caridade, é justiça social.<br />
<br />
No Brasil, onde a questão social até bem pouco tempo era caso de polícia, a Igreja esteve envolvida nas últimas décadas em defesa de uma sociedade mais humana. Desde os movimentos contrários à tortura no regime militar até o apoio às lutas dos trabalhadores, a Igreja esteve presente, seja com as missas em manifestações, declarações de autoridades, ações concretas, campanhas da fraternidade, toda uma série de elementos que mostraram que a Igreja não está apenas envolvida na construção de um mundo mais cristão, ela está comprometida. No livro <em>O Monge e o Executivo</em> há uma definição interessante para a diferença entre estar envolvido e estar comprometido. Numa refeição de ovos com bacon, a galinha foi envolvida e o porco comprometido.<br />
<br />
Me entristece o péssimo hábito que adquirimos de jogar fora, após o banho, a bacia, a água e a criança. Abrimos mão de uma experiência riquíssima de compromisso com a concretização do Cristianismo no mundo, apenas por poder ser rotulado de “Teologia da Libertação” ou de marxismo, ainda que esteja dentro da Doutrina Social da Igreja. Não temos, no entanto, o mesmo receio de ver estimulado o egoísmo e a egolatria, apesar de poder ser classificado de “Teologia da Prosperidade”. Em ambas as “teologias” encontram-se erros, exageros e equívocos – alguns até as tornam incompatíveis com o Evangelho –, a bem do que se possa aproveitar de positivo, mantemos a mania de jogar fora a criança e a bacia junto com a água.<br />
<br />
Sei que muitos torcem o nariz para textos que tratam de temas tão desagradáveis, como pobreza, sofrimento, luta por um mundo melhor, talvez preferissem um bom informativo sobre as novidades tecnológicas ou a moda, ainda que não possam adquiri-las. É, sem dúvida, mais atraente a propaganda de celulares que fazem coisas das quais poucos realmente necessitam, mas que causam a satisfação de um ego hipertrofiado. Que Deus nos conduza à virtude da empatia pelo sofrimento alheio, para que nos constranja mais o personalismo que a busca por uma sociedade mais cristã.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>Indelevelmente Humano</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Nov 2009 17:35:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />Eu acho particularmente interessante o questionamento que persiste pelos últimos dois séculos sobre o que nos diferencia dos outros animais. O livro do Gêneses nos conta que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, descrevendo com isso que o ser humano é ontologicamente dessemelhante das demais criaturas. Por outro lado, a genética nos coloca um outro aspecto: os grandes símios – gorilas, chipanzés e orangotangos – são geneticamente quase idênticos a nós. Os chipanzés chegam a ter mais de 98% de semelhança com o nosso DNA. Não obstante a isso, parece óbvio que os humanos foram dotados com algo mais que não está presente na natureza dos animais em geral.<br />
<br />
<span id="more-684"></span>Na antropologia religiosa a resposta, embora bastante complexa, não é difícil de ser aferida. Apenas os seres humanos tem capacidade de transcender, isto é, de perceber um limite e, ao mesmo tempo, imaginar a sua transposição. Aos animais os limites são invisíveis, no sentido de que não são percebidos como tais. Os animais não projetam a superação de seus limites, não obstante criem soluções imediatas para seus problemas. A haste que serve ao macaco para “pescar” cupins não se torna para ele um instrumento, como as ferramentas o são para os artífices, o instrumento para o músico, os navios para os marinheiros, os livros para os eruditos,&#8230; Só os humanos desenvolvem relações específicas com os instrumentos de seu ofício, assim como só os humanos são capazes de compreender realidades abstratas e imateriais, como a vida após a morte, a existência de seres totalmente imateriais e superiores e, por fim, uma dimensão transcendente, diferente da dimensão imanente, embora com ela conectada. Em uma palavra, só os humanos podem ter religião, e de fato, até o século XVIII, todos tinham algum tipo de crença transcendente.<br />
<br />
A ciência segue às apalpadelas. Em geral, as definições dos cientistas, até recentemente, foram muito mais negando aos animais habilidades que percebem nos humanos, do que identificando uma essência humana propriamente dita. Começou com a definição de racionalidade, então os animais seriam irracionais, mas as dificuldades em se definir consensualmente o que de fato é raciocínio levou ao abandono da dicotomia da razão. A capacidade do uso de ferramentas chegou a ser levantada como habilidade humana e incapacidade animal, o que não resistiu à observação da vida selvagem. Foram progressivamente sendo observados vários usos de ferramentas por animais: grandes e pequenos símios, lontras, corvos,&#8230;<br />
<br />
Daí me parece que, com a descoberta da proximidade genética, passou-se a utilizar termos, até então, exclusivos da descrição dos homens, como cultura e aprendizado, também para outros animais. Acho que uma tal aproximação entre homens e animais tem haver com uma certa decepção com o comportamento humano. A proliferação de guerras, o efeito estufa, a fome disseminada e a miséria produzida pela perversidade humana, criaram um ambiente propício à suposição da redução das fronteiras entre humanidade e animalidade, entre civilidade e selvageria. Esse é o mesmo contexto que obrigou à Igreja a chamar a atenção para uma “ecologia humana”, ou seja, que se cultivasse uma preocupação preservacionista com os grupos humanos cuja extinção também é iminente.<br />
<br />
A história também teve que se deparar com essa questão. Só para citar dois temas em que os historiadores se deparam com ela diretamente, temos os estudos sobre a escravidão e o holocausto. Quanto à escravidão é mais simples de entender. Um grupo gigantesco de seres humanos, oriundos da diáspora africana, cerca de 10 milhões de pessoas para ser mais específico, foram tratados em algum momento de suas vidas como não-homens. No entanto, o que os novos estudos mostram é que isso não era uma constante na vida dos escravos, isto é, os escravos não eram permanentemente vistos como mercadorias ou animais. Isso se restringia a momentos muito específicos e, em geral, apenas na documentação administrativa e comercial. No momento da compra, do leilão, do inventário, da hipoteca, ou de outros atos administrativos, tratavam-nos por peças ou mesmo gado (humano), ou ainda junto com os semoventes (propriedades que se movem: bois, cavalos, mulas, porcos,&#8230;), porém no cotidiano a sua humanidade era evidente. Atos religiosos, como batismo, matrimônio, sepultamento, manutenção de irmandades, tudo que os católicos poderiam auferir do clero, os escravos o poderiam igualmente. O que os configura como humanos, já que animais não recebem sacramentos. Mesmo senhores de escravos tratavam-nos como gente, inferior, subalterna, mas gente. O Barão de Paty de Alferes diz que não se deve levar os cativos ao extremo aperreamento, recomendando que se fizessem concessões para festas e manifestações culturais, sob pena de revolta e prejuízo direto ou indireto.<br />
<br />
Um segundo momento em que historiadores se deparam com a tentativa de desumanização de uma dada população foi o massacre dos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra. O que pouco se comenta é que a base para essas atrocidades foi a ciência da época, a genética inclusive. A divisão da humanidade em raças foi o suporte ideológico-científico que permitiu aos nazistas por em marcha a chamada “solução final”. A origem desse pensamento não está na Alemanha, está com antropólogos das Américas, em especial dos EUA. Estes cientistas estavam tentando resolver o problema do convívio entre brancos e negros não apenas no norte, mas aqui, no país sem preconceitos, também. As soluções dos colegas norte-americanos foram mais radicais: passaram pelo uso da população negra como cobaia em estudos com enfermidades potencialmente fatais (como a sífilis, no Alabama) até a possibilidade de criar um programa de esterilização em massa e compulsório. Tudo baseado na crença científica de que os negros eram uma outra raça, naturalmente inferior.<br />
<br />
Na primeira metade do século XX, os nazistas utilizaram estas idéias que, diga-se de passagem, já eram tidas como cientificamente provadas, para convencer boa parte da Europa de que os judeus eram nocivos, anti-raça, inumanos. Todos os países ocupados pelos alemães entregaram judeus “para serem levados no projeto de colonização do leste do rio Elba” (como dizia a propaganda nazista), embora muitos soubessem que havia algo diferente acontecendo. Assim foi possível erguer a rede de campos de concentração sem que os envolvidos – salvo as gloriosas exceções – chegassem a um drama de consciência com a morte de seis milhões de judeus, três quartos da população judaica da Europa. Estava tudo referendado pela ciência.<br />
<br />
Porém, dentro do campo, em condições extremas, na ausência dos meios mínimos de sobrevivência, os prisioneiros buscavam formas de se manter. Há, no livro de memórias É isto um homem?, escrito pelo sobrevivente Primo Levi, uma descrição do ritual de higienização imaginado pelo delírio nazista. Obviamente imaginado, uma vez que a ausência de sabão e a imundice da água não permitiam sequer que tal ritual se aproximasse de algum resultado. Levi parece ter percebido isso rapidamente, daí a sua má vontade para com esse processo. Porém, para Steinlauf, ex-sargento do exército austro-ungaro, a higiene pessoal funciona como uma forma de reação, uma forma de manter a “estrutura de humanidade”.<br />
<br />
Com Levi foi diferente, não foi o pseudo-asseio que o permitiu manter-se culturalmente vivo. No capítulo “O canto de Ulisses”, ele mostra um dos seus artifícios para a manutenção da própria humanidade. O esforço para ensinar a língua materna (italiano) a Jean, a bem da aparente inutilidade de se ensinar ou aprender qualquer coisa que não fosse absoluta e imperativamente prática e útil, pôde retirá-lo, ainda que por instantes do mundo insano em que se achava imerso.<br />
<br />
Para além das atitudes pessoais e íntimas, o campo apresentava uma vida social que parecia teimar em manter-se humana. A existência de atividades de troca à base de pão como moeda, entre outras coisas, torna patente que a subtração dos aspectos humanos, ainda que estes possam parecer exíguos e esmaecidos, não se concretiza, nem por meio de mecanismos de repressão, ainda que de violência extremada. Ao contrário, quanto maior a penúria, tanto maior o desejo de aplacá-la, que é de onde surgem os fachos de humanidade.<br />
<br />
Sendo assim, na história, as aplicações de violência e força para desumanizar populações se mostraram infrutíferas, a bem de suas ferocidades. Seria, então, impossível a outro subtrair a humanidade de alguém, quaisquer que fossem os meios empregados? Me parece que sim. A humanidade é algo que só perdemos quando a entregamos. Quando abrimos mão de nossas capacidades intrínsecas, ou seja, a capacidade de ver além, de mirar a eternidade, tornamo-nos um pouco menos humanos. Quando usamos as coisas que passam para nos afastar das que não passam, abandonamos um pouco mais a semelhança com o Pai. Observando, com a história, pessoas a quem violentamente se tentou solapar a condição humana e que isso não foi possível aos algozes, chegamos à conclusão de que aquele sopro que penetrou as narinas da humanidade não pode ser removido, salvo seja soprado para fora. Afinal, somos indelevelmente humanos.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>Da Autoridade Cristã e dos Labirintos da História</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 14:05:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensando em tempos]]></category>

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		<description><![CDATA[A história, assim como a vida da gente, possui situações de labirinto. Alguns de nós, vez ou outra, são lançados numa situação daquelas que, por mais que busque a saída, sempre dá de cara com uma parede? Um caminho promissor após o outro levam sempre a becos sem saída. Nesses momentos acho que parecemos um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />A história, assim como a vida da gente, possui situações de labirinto. Alguns de nós, vez ou outra, são lançados numa situação daquelas que, por mais que busque a saída, sempre dá de cara com uma parede? Um caminho promissor após o outro levam sempre a becos sem saída. Nesses momentos acho que parecemos um pouco com Abraão, a quem o Criador pediu o filho dileto em sacrifício. Também vamos nós sacrificando esperança atrás de esperança, até que eis que surge, em geral sabe lá Deus de onde, uma brecha nas paredes estreitas do labirinto, um facho de luz que guia os passos pesados rumo a uma nova esperança de saída, até que por fim esta se apresenta a nossa frente, providenciada pelo Pai, assim como o cordeiro para o sacrifício de Abraão. Parece que ouvimos o anjo a nos ordenar com voz firme: “Não toques mais nas tuas esperanças, chega de sacrificá-las.” Na história temos situações assim. Vejamos como se dá.<br />
<br />
<span id="more-670"></span>Durante a Idade Média ocorreu um processo chamado pelos historiadores de feudalização do clero. De fato, desde os tempos de Constantino a escolha de clérigos para ocupar cargos públicos já lhes trazia alguns problemas morais, uma vez que, por terem se tornado praticamente sinônimos, a carreira eclesiástica passara a ser tão próspera quanto a carreira pública. Com o advento do Império Carolíngio, o processo tendeu a se aprofundar, o clero passou a ser cabeça pensante do Império, atuando muito próximo ao imperador. O chamado Renascimento Carolíngio, período de grande avanço artístico e cultural, foi quase totalmente desenvolvido pelo clero. A partir daí os mosteiros se tornaram grandes depósitos e perpetuadores do conhecimento. Até aí nada de grave. O problema se torna realmente um labirinto com a fragmentação do poder político acorrida com a morte de Carlos Magno, dando origem a um sistema social, político e econômico conhecido como feudalismo.<br />
<br />
O mundo feudal foi particularmente cruel para o clero. Uma vez que o episcopado havia se tornado uma função política, os bispos passaram a ser príncipes. A consagração episcopal se transformou numa cerimônia dupla, na qual os senhores feudais superiores tinham um papel fundamental. Dá para imaginar que a vocação ficou seriamente comprometida na escolha da carreira eclesiástica. É costume colocar na conta do papado medieval a responsabilidade por todos os defeitos de que a Igreja é acusada. No entanto, o problema era tão disseminado nas estruturas eclesiásticas que é difícil não prever a queda de legitimidade que o clero sofreu nos séculos seguintes.<br />
<br />
O papado medieval, por outro lado, labutou por uma verdadeira reforma: um poderoso movimento em busca da reorganização da Igreja, menos subordinada ao poder político secular. Dentre os vários papas reformadores, o mais conhecido é Gregório VII, que ambicionava ver a Igreja livre das interferências seculares, principalmente nas investiduras episcopais, e da simonia. Embora de alcance relativamente limitado, a chamada Reforma Gregoriana contribuiu para que o desastre não fosse maior, afinal, bispos e papas, inebriados pelo poder, estavam se metendo em jogos para os quais não estavam preparados.<br />
<br />
No labirinto do poder político se perderam muitos homens do clero, seduzidos pela promessa de serem servidos, por autoridades que, em verdade, lhes queriam servos. Assim, em momentos críticos, o papado tornou-se uma peça do intrincado quebra-cabeça do poder político europeu. Um dos mais lastimáveis resultados desse processo foi o exílio do papa em Avinhão. Particularmente triste foi o fato do papa ter sido considerado, nesse período, não mais que um capelão do rei da França. Quando foram empreendidas tentativas de por termo a esse desterro, em busca da saída do labirinto, um novo beco se apresentou. O papa voltou a Roma, mas foi eleito outro em Avinhão. Tenta-se então uma nova saída, resultando na indicação de um terceiro, que deveria ser de consenso, como nenhum dos outros abandonou sua pretensão ao papado, havia três homens a serem chamados de Santidade pelos seus seguidores: o indicado originalmente e outros dois chamados de anti-papas. Salva-se a situação no concílio de Constança, no qual é eleito, em novembro de 1417, Martinho V, que passa a ser o papa único e efetivo para todos os católicos.<br />
<br />
A busca pela reorganização eclesiástica dentro da própria Igreja é pouco conhecida mesmo entre os católicos, mas outra luz brilhou em meio aos problemas da Igreja medieval. Conhecido até hoje pelo mundo a fora, Francisco de Assis, eleito a personalidade do segundo milênio, foi também em sua simplicidade um fonte de transformação no medievo. É estranho, mas poucas vezes se fala de Francisco no seu contexto. É como se ele tivesse nascido fora do seu mundo, o que faz com que se perca muito do contraste e, por tanto, da beleza da personalidade do pobre de Assis.<br />
<br />
Para começar, sua família era de um grupo social relativamente novo, os burgueses. Eram burgueses no sentido mais primitivo da palavra, ou seja, habitantes dos burgos, cidades. Mas não apenas isso, era uma família burguesa por se dedicarem ao comércio de tecidos. Há relatos de Francisco trabalhando na loja de seu pai. Mas se é verdade que Pietro Bernardone deu o nome de Francisco em homenagem à França ao voltar de uma viagem a este país, é bem possível que a família estivesse ligada a uma rede mercantil que conduzia tecidos do Oriente até o norte da Europa. Se assim se deu, a família de Francisco era realmente muito rica ou estava em vias de acumular grande fortuna. Isso explica, sem dúvida, a ânsia de transformar Francisco em nobre, com direito à isenção de impostos e outros privilégios jurídicos.<br />
<br />
Mandá-lo à guerra era um imperativo. Os planos de Pietro Bernardone eram de ascensão social para a família, ou seja, ainda que ele não se beneficiasse pessoalmente do ingresso da família Bernardone na nobreza, seus descendentes teriam a existência social garantida. Este processo, não traria dinheiro, algo que a família já possuía meios de obter, o que se alcançaria com a nobreza era o status social.<br />
<br />
Se agregarmos ao contexto familiar imediato de Francisco, seu contexto clerical, com a feudalização atingindo boa parte do clero, corrompendo vários líderes religiosos do catolicismo, veremos que Francisco teve a ousadia de romper com seu contexto, tanto o imediato, quanto o geral. Teve a ousadia de romper com a lógica que regia grande parte das decisões do seu tempo. Isso mais do que qualquer outra coisa o fez ser chamado de louco por alguns.<br />
<br />
Havia pobres, havia aqueles que viviam a margem da sociedade, mas nenhum por desejar que assim o fosse. Os pobres, como era de se esperar, tentavam a todo custo deixar de ser pobres, embora a sociedade fosse bastante engessada para que isso acontecesse. Os que estavam à margem da sociedade, se tivessem a chance, entrariam nas esferas de ascensão social, estabelecendo estratégias como as do senhor Bernardone. Mas Francisco optou estar fora das regras do jogo social de seu tempo. Optou por uma liberdade que só os que não tem nada e nada a perder possuem, uma liberdade que dá medo, porque seu preço é alto.<br />
<br />
O choque teve um efeito estranho, uma vez que o razoável seria que, muito longe de ser santo, ele fosse apenas tido por louco, como tantos outros dos quais se diz que perderam o juízo e por isso se acabaram na mendicância. Mas não. Boa parte da sociedade de seu tempo entendeu que a pobreza de Francisco era lúcida e fecunda, contrastando com a opulência dos lideres, contra os quais Francisco nada falou, ao contrário, a todos se submeteu. Paradoxalmente, o mundo seguiu o mesmo rumo desde Francisco, mas nunca mais foi o mesmo.<br />
<br />
A ganância e a busca da ascensão social continuam fazendo parte de nosso cotidiano, não temos a mesma vocação para pagar o preço da liberdade de Francisco, mas sabemos que é possível viver com os valores de Cristo. Sabemos, por Francisco e por outros santos, que a maré da sociedade não é impossível de ser vencida e que os líderes não precisam ser suntuosos para terem o respeito de seus liderados. Não são os tronos e cetros que fazem o poder na hierarquia de Cristo: é o serviço.<br />
<br />
Falando assim, podemos pensar que o foco do último parágrafo são as autoridades eclesiásticas medievais, mas cada um de nós atravessa situações de autoridade, como as situações de labirinto. Todos nós estamos sujeitos a imaginar que, por ser o trono muito alto, estaremos sentados nele com alguma coisa que não as nossas nádegas.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>Do Tempo e das Metáforas</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 12:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O Homem é o único animal que conta o tempo e, por conseguinte, possui história. Na busca por um sentido para me dedicar ao estudo da história, um professor da faculdade me forneceu essa poderosa pista: embora a história também sirva para apartar os homens uns dos outros, ela também nos dá o sentido de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />O Homem é o único animal que conta o tempo e, por conseguinte, possui história. Na busca por um sentido para me dedicar ao estudo da história, um professor da faculdade me forneceu essa poderosa pista: embora a história também sirva para apartar os homens uns dos outros, ela também nos dá o sentido de Humanidade, nos faz conhecer a coletividade humana. Esta afirmação me acompanhou por anos a fio e quando fui desenvolver um pequeno estudo sobre a transcendência, outra característica exclusivamente humana, me dei conta de estas estão intimamente ligadas. As crenças dos grupos humanos animistas fundamentavam-se em duas esferas de espíritos: os das manifestações naturais e os dos antepassados. A consciência da existência de antepassados nos remete à história ou a uma proto-história, gerando ao mesmo tempo dois sentidos, o de humanidade, já que antepassados comuns nos atam uns aos outros para além da morte, e o de uma vida após a morte.<br />
<br />
<span id="more-615"></span>Então, podemos concordar com o historiador Stefen Bann quando diz que a teologia e a história são irmãs. No caso do Cristianismo de fato o são, não apenas por nascerem de uma raiz comum, mas porque talvez continuem a caminhar juntas. Nós herdamos do judaísmo uma perspectiva histórica de Deus, que criou o mundo, marcando o início dos tempos, que se manifesta na vida do homem, no desenrolar de sua história, e que vai presidir o fim dos tempos e, por conseguinte, o fim da história. Essa perspectiva linear do tempo é muito diferente da visão cíclica de muitos povos que acreditavam viver em um mundo criado para cumprir um número específico de ciclos temporais e depois desaparecer.<br />
<br />
Paradoxalmente nós, que deveríamos ter uma visão limitada do tempo – afinal, até onde se consegue traçar uma linha – temos a graça de conhecer a idéia de eternidade. Mais que isso, tivemos um apóstolo que nos deu a conhecer a percepção da “plenitude dos tempos”, que implica na representação do tempo não apenas linear, mas também com requintes de entendimento do seu devir. Apesar da liturgia cadenciar nossos passos em ciclos anuais, por sua vez divididos em ciclos festivos, Natal e Páscoa, que marcam nossa jornada rumo ao fim dos tempos, temos a escatologia que nos aponta linearmente para a eternidade. Nada mais histórico do que partir rumo à eternidade com passos cadenciados pelos marcos da plenitude dos tempos. Eventos tão importantes na história da Humanidade não poderiam ficar para trás, mesmo que a nossa frente esteja o protagonista deles.<br />
<br />
Isso nos aponta para o fato de que entrelaçar o eterno e o histórico implica em inserir as dimensões eternas na história dos homens, tanto quanto tentar fazer com que ela alce vôo à eternidade. Apontar realidades tão profundas sem apontar igualmente para os precedentes histórico-culturais familiares aos seus ouvintes, e que os permitiriam manejar as Verdades Eternas, não funciona muito bem. Aqui faço uma outra interpretação à metáfora de Jesus sobre atirar pérolas aos porcos: antes de mais nada, todos tem pérolas e, ao mesmo tempo, todos são porcos, todos ensinam e aprendem algo. Por outro lado, ao apresentar as pérolas do Evangelho, se estas são jogadas e não são aproveitadas, talvez o problema não esteja apenas com os que as ouvem, mas também com quem simplesmente as jogou, sem grandes cuidados, sem a preocupação de que pudessem fazer sentido para quem foi atropelado por uma saraivada de pérolas. Jogou e pronto. É preciso que as culturas alcançadas pela mensagem cristã – mesmo as nossas culturas urbanas modernas – possam ver elementos internos que as permitam lidar com as pérolas. Dito de outro modo, evangelizar é, numa mesma operação, trazer algo novo, a partir do que de antigo se compatibiliza com as Palavras de Jesus, e aprender daqueles a quem se ensina o que Deus naturalmente já havia lhes mostrado.<br />
<br />
Tivemos na história inicial do Cristianismo um exemplo muito interessante do que estou tentando dizer. Parece que, ao menos inicialmente, os apóstolos esperavam que os pagãos deixassem de ser o que eram para se tornarem uma outra coisa e recebessem as pérolas do Evangelho. No entanto, isso era pedir demais do suporte cultural de muitos. A circuncisão, por exemplo, era um obstáculo intransponível, para os pagãos, era mutilar os homens no seu símbolo de masculinidade e fertilidade. Como a Graça pressupõe a natureza, Deus, em sua infinita misericórdia, enviou um apóstolo “abortivo” em socorro dos seus.<br />
<br />
A compreensão de seu tempo e a capacidade de esquadrinhar o caldeirão de crenças e costumes diversos que conviviam na bacia do Mediterrâneo foi crucial à ação de Paulo. Este não apenas percebeu que vivia a plenitude dos tempos, mas também que seu tempo, como todos os outros, era dotado de uma historicidade própria. O Império romano, que crescia assustadoramente desde o final das guerras contra Cartago; a cultura helênica, espalhada para o Oriente pela expansão de Alexandre, o Grande; e a cultura e religião hebraica, também dispersas pela orla do Mediterrâneo desde a Diáspora, eram elementos que modelavam a vida dos homens na plenitude dos tempos. Talvez os outros apóstolos tenham apostado que a plenitude roubaria a historicidade do tempo. Porém, lembremo-nos de que a teologia e história são irmãs, caminham juntas, e isso soube Paulo.<br />
<br />
Daí Paulo ter se tornado uma espécie de apóstolo das metáforas. A compreensão de que sem apontar instrumentos mentais e lingüísticos originários das próprias culturas que evangelizava as pérolas não fariam sentido à elas – talvez nem mesmo aos judeus, por isso a profusão de parábolas no Evangelho – levou Paulo a criar um repertório idiomático a partir dos elementos mais caros as culturas para as quais falava. Combater o bom combate, o atleta e sua meta, armadura com espada e escudo, dentre tantos outros, foram artifícios aprendidos e usados para fornecer um repertório de imagens novo para que as culturas que ouviam o Evangelho pudessem manejá-lo com sentido e a partir de seus próprios elementos.<br />
<br />
Avançando no tempo quinze séculos, eis que um grupo de jesuítas se depara com uma cultura tão estranha para eles e para o evangelho que tinham nas mãos, que a situação muito se assemelhava às pregações de Paulo em cidades como Corinto. A estratégia não foi exatamente a mesma, havia um braço secular, introduzido por Constantino no alvorecer do século IV e só retirado, em alguns casos (Brasil, por exemplo), no século XIX. Certamente houve um esforço de comunicação considerável. Fui testemunha (não ocular) disto, certa feita estava eu pesquisando no fichário do setor de obras raras da biblioteca nacional quando me deparei com um livro bilíngüe, tupi e latim, para catequese e confissão, não resisti e pedi para ver. Era um pequeno manual do século XVI elaborado por Anchieta ou algum dos primeiros jesuítas que aqui evangelizavam os índios. Com este pequeno livrinho, o sacerdote poderia não apenas empreender a catequese, mas formular perguntas que tinham como objetivo sacar da alma do penitente nativo seus delitos e poder ministrar-lhe a absolvição.<br />
<br />
Porém parece que as semelhanças terminam aí. O próprio livrinho testemunhava um severo limite no esforço de comunicação. Limitava-se o esforço de comunicação à uma comunicação verbal, sem buscar um sentido mais profundo de comunicação, um diálogo. Bastava que o indígena compreendesse as perguntas do sacerdote, mas não havia grande esforço em fazê-lo compreender o sentido da reconciliação com Deus. Menos ainda, é óbvio, o sentido do que é o pecado e quais aspectos de sua cultura eram favoráveis a compreensão mais profunda do Evangelho. Tudo era tão epidérmico, em seus aspectos de forma – procissões, autos da vida dos santos – que, foi possível dizer desse esforço: “Nunca fizemos catequese, sempre fizemos carnaval”.<br />
<br />
Anos mais tarde, lecionando história da Igreja no Brasil aos seminaristas, um aluno muito aplicado fez um trabalho bastante interessante sobre os jesuítas. Como lembrei-me do livrinho, lhe recomendei que abordasse também o método de catequese. Minha surpresa foi grande ao atinar que EU fui catequizado, na década de 1980, com o mesmo método dos jesuítas no início da colonização. Certamente muitos leitores vão se lembrar da professora de catequese perguntando: “Quem é Deus?” ou “Quais as pessoas da Santísssima Trindade?”. Pois bem, estas eram as mesmas perguntas que os índios dos idos de 1540 ouviam dos seus catequistas. Sem nenhuma metáfora a lhes aproximar a vida às Verdades Eternas, sem uma catequese que pudesse lhes dar uma compreensão mais profunda, que fosse além das expressões memorizadas. Nenhum recurso a riquezas de seu próprio modo de ver o mundo, a elementos religiosos que naturalmente gestavam em seu ambiente compatíveis com a mensagem cristã, nem a imagens mentais familiares que tornasse o estranho, o novo, em algo mais familiar, mais próximo, fazendo com que o processo ficasse menos abrupto.<br />
<br />
Isso me faz pensar na linearidade do tempo e na capacidade de perceber os sinais e as necessidades dos processos históricos. Roguemos ao Senhor da messe que nos conceda a perspicácia santa de São Paulo para usar as metáforas certas para os tempos certos. Inclusive para o nosso próprio, tão carente de uma evangelização que transcenda tanto a cobiça e a ganância da prosperidade material, quanto a volúpia religiosa do relativismo. Rezemos ao Senhor.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>Da Crítica à Teologia da Prosperidade</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Aug 2009 12:18:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A chamada “teologia da prosperidade” é tão eficiente que seduz não apenas fiéis, mas líderes católicos também caem nas suas graças. Hoje, já é possível ver, aqui e acolá, padres pregando a prosperidade como sinal da graça de Deus. No entanto, o discurso da prosperidade tem outros aspectos importantes, além da sedução. A bem das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />A chamada “teologia da prosperidade” é tão eficiente que seduz não apenas fiéis, mas líderes católicos também caem nas suas graças. Hoje, já é possível ver, aqui e acolá, padres pregando a prosperidade como sinal da graça de Deus. No entanto, o discurso da prosperidade tem outros aspectos importantes, além da sedução. A bem das aparências, não se trata de uma novidade. A “teologia da prosperidade” não é nova em seu âmago. O modelo relacional dos pagãos e das religiões animistas com suas divindades é extremamente semelhante à pregação da prosperidade. O centro da relação com o divino é regido, como tudo na vida dos homens, pelo princípio da dádiva (dom e contra-dom).<br />
<br />
<span id="more-575"></span>O antropólogo francês Marcel Mauss, estudando sociedades arcaicas, percebeu que as relações humanas são regidas por um princípio básico chamado dádiva. Isso significa que, na interação de pessoas ou grupos, para cada dádiva (dom ou coisa dada) se obriga um contra-dom (um retorno ou retribuição). Essa seria a base antropológica do comércio e da economia: a troca fundada no dom/contra-dom. Nas crenças pagãs e religiões animistas, a relação com o sagrado cumpre a função de controlar o inesperado ou o incontrolável (clima, fertilidade, doenças, catástrofes,&#8230;) por meio de rituais que visam o controle da divindade, pondo-a a serviço do suplicante. Para isso utiliza-se um dom, oferenda ou congênere, com o qual acredita-se obrigar a divindade ao contra-dom – boas colheitas, bom tempo, curas, sucesso na caça ou na guerra,&#8230; Desse modo acredita-se ter sob controle o que inicialmente é imprevisível. Esta crença certamente traz conforto ao espírito daquele que faz a oferenda, afinal a divindade, em contrapartida ao dom deste, estaria a seu serviço.<br />
<br />
E mais. Neste mecanismo está subentendida a equivalência entre o dom e o contra-dom esperado. Na busca por dons à altura do que se pedia, alguns povos pré-colombianos, tais como astecas, se esmeraram na produção em série de sacrifícios humanos, ofertando às divindades o que de mais precioso se podia pensar: a vida humana. Note-se que a concepção de divindade nessas culturas é profundamente antropomórfica, já que são entidades sujeitas às práticas humanas, aos humores, às limitações,&#8230; De igual modo, os pregadores da prosperidade afirmam que sua divindade pode ser provocada por meio de desafios, conquistada por meio de oferendas e que a sua “benção” é proporcional à oferta. Nada de novo.<br />
<br />
Que o ser humano tende a recorrer mais fervorosamente a Deus em momentos críticos, em crises ou calamidades, isso é fato. Jesus esperava por isso. Afinal o filho ingrato da famosa parábola retorna a casa paterna não porque sentiu saudades. Foi o infortúnio que o impeliu ao retorno. Mas o Evangelho também nos dá conta do desapontamento de Cristo ao perceber que só era procurado por muitos em função dos pães que lhes fartara os estômagos e não pelo Reino dos Céus que pregava. Consonante com a interesseira procura que causou desapontamento no Messias, um dos fatores característicos da “teologia da prosperidade” é subverter a premissa cristã de que Deus agiu (amou) primeiro e, portanto, a humanidade é que está obrigada ao contra-dom (do seu amor). Isso equivale dizer que de servos de Deus, passou-se a considerar um deus servo.<br />
<br />
Mas ainda há outro fator característico importante. Também está embutida nesta história toda, a idéia de que a riqueza de uma sociedade e sua capacidade de produção são infinitas. Ou seja, se todos os indivíduos de uma dada sociedade resolvessem aderir ao esquema da prosperidade, de onde viriam os recursos para que todos tivessem as suas expectativas correspondidas? Cairiam como o maná do céu – seria a resposta do deus servo. Pensar assim só torna o esquema ainda mais perverso. Certamente há recursos no mundo para atender as necessidades de todos, mas a saída para essa sociedade mais equilibrada certamente não passa pelo fomento das ambições. Se todos fossem ter o padrão de vida dos principais líderes religiosos brasileiros, faltariam recursos certamente.<br />
<br />
Enfim, o que se está formando é uma sociedade cada vez mais comprometida com a exclusão social. Se o padrão moral, sancionado pela fé, é que cada um deve tentar, individualmente, tornar-se rico, de onde virá a propensão a mitigar a pobreza? Pior, enquanto o deus servo não se manifesta, o abismo social cresce e se torna socialmente naturalizado. De fato, a naturalização da pobreza é o efeito colateral desse discurso. Melhor ainda, a “sobre-naturalização” da pobreza, já que as dificuldades financeiras são vistas como obra do demônio na vida do fiel, que precisa então correr para a igreja mais próxima e fazer o seu dom, obrigando a divindade ao contra-dom.<br />
<br />
No entanto, trata-se de um demônio abstrato que não tem ação concreta na desigualdade social, na exploração da população, na falta de solidariedade, nas ambições desmedidamente egoístas, na corrupção e em tantas outras mazelas que fazem dos pobres ainda mais pobres e mais desvalidos. Todas as mazelas e mesquinharias que realmente geram a perversa concentração de renda no Brasil – uma das piores do mundo – não podem ser identificadas como sintomas de uma presença maléfica no mundo e na vida da população por ser o obscuro príncipe das trevas abstrato demais. A ação desse demônio é tão etérea, que só pode ser identificada em efeitos, nunca em causas. Confortavelmente remove-se a possibilidade de responsabilizar quem quer que seja, pelo que quer que seja.<br />
<br />
Por outro lado, analisando o papel das lideranças cristãs, como definiu brilhantemente o pastor e professor de Ética Corporativa da Fundação Getúlio Vargas Eduardo Rosa Pedreira, em seu artigo “Autópsia de uma Fé”, o que se tem é a potencialização de carisma sem caráter. Analisando o lastimável caso da igreja Renascer em Cristo, com um apóstolo e uma bispa com capacidade de mobilização de massas em função de seus interesses pessoais, o pastor Eduardo Pereira nos chama a atenção para o que ele denomina de “equação daninha”, que, no contexto da fé, justifica um estilo de vida “socialmente nababesco”. Que o Senhor nosso Deus e Pastor nos encaminhe para além das futilidades, usando as coisas que passam para alcançar as que não passam.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>O crescimento do protestantismo no Brasil e a tese de Weber</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jul 2009 12:33:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensando em tempos]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />Curiosamente, segundo os últimos sensos, o grupo religioso que mais cresce é dos que não possui filiação religiosa. A segunda opção religiosa com crescimento digno de nota é das igrejas evangélicas. Este conjunto responde pelo grosso dos fiéis que se evadiram do catolicismo. Porém, com este crescimento, segundo Marcelo Néri, em seu trabalho Retrato das Religiões no Brasil, um aparente paradoxo sociológico se desenha em nossa sociedade. Em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber, um dos pais da sociologia clássica, mostra a intrincada relação entre a nova ética religiosa, trazida por certos credos protestantes, e a consolidação do que ele chamou de espírito capitalista na Europa e nos Estados Unidos. Segundo Weber, o desenvolvimento da nova ética, promovida por uma pedagogia religiosa, que havia libertado o fiel da culpa quanto ao acúmulo de riqueza, conduzia à prosperidade de seus praticantes.<br />
<br />
<span id="more-528"></span>Como exemplo desta relação entre a ética protestante e o espírito capitalista, pode-se citar Benjamin Franklin, homem forjado pela austera moralidade puritana, como destaca Weber.<br />
<br />
<strong>Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífera e geradora. O dinheiro pode gerar dinheiro, e seu produto gerar mais, e assim por diante. Cinco shillings circulando são seis; circulando de novo são sete e três pence e assim por diante, até se tornarem cem libras.[...]</strong><br />
<br />
De fato, o que Weber observou na Alemanha do século XIX é exatamente o oposto do quadro brasileiro do final do século XX. Na Alemanha do século XIX, as elites econômicas, basicamente homens de negócios, grandes capitalista e funcionários altamente qualificados, eram predominantemente protestantes. Segundo Weber, o fator determinante para isso era professarem uma fé que lhes permitia, e mais, estimulava à acumulação de capital. O que se vê, entre ocaso do século XX e o raiar do século XXI, no Brasil é o quadro inverso, a maioria dos evangélicos se localiza geograficamente nas periferias e socialmente nas camadas mais pobres. Como explicar que, mesmo em processo de crescimento das denominações evangélicas, o seu rebanho não está em ascensão social, senão apenas suas lideranças? Sem querer responsabilizar o protestantismo pela pauperização do brasileiro, o que seria um erro dos mais crassos a se cometer, o que Marcelo Néri chama a atenção é que o Brasil não está se desenvolvendo segundo a tese de Weber.<br />
<br />
Estatisticamente, evidencia-se um crescimento da renda detida pelo grupo mais abastado da sociedade brasileira paralelamente ao crescimento do percentual evangélico da população. Então, de fato, o que se tem é um processo de agravamento da desigualdade social, dado que o correlato do acréscimo de riqueza nas mãos dos ricos é o crescimento da pauperização dos décimos mais pobres da sociedade brasileira, exatamente o público alvo das igrejas que mais crescem no país. Se comparada com o que Weber inventariou na história do protestantismo tradicional, a realidade brasileira é diametralmente oposta. Daí o aparente paradoxo.<br />
<br />
A solução pode estar exatamente no modelo de protestantismo que mais está crescendo no país e na sua perspectiva “teológica” dominante. Quando se trata do crescimento das igrejas evangélicas há distinções. As mais tradicionais ou históricas respondem por um numero inferior à metade das pentecostais. O que significa dizer que estes últimos tiveram um crescimento extremamente acelerado (chegando a 8,9%) se comparados às demais denominações (5,2%). Dentre os chamados pentecostais, o grupo que realmente desponta é o dos neo-pentecostais. Desse modo, denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo e Igreja da Graça alavancam o crescimento do número de evangélicos, muito mais do que os luteranos ou metodistas.<br />
<br />
A origem histórica deste movimento está em meados da década de 1970, quando começa a se desenvolver em toda a América Latina o que René Padilla classifica como a terceira onda do pentecostalismo no continente. Depois dos grupos pioneiros de missionários no início do século XX, ainda vinculados às organizações internacionais, e da leva dos anos 50, que começou a alcançar autonomia, surge um novo grupo de pregadores quase que totalmente nacionais e absolutamente independentes, com atuação política considerável e uso intenso da mídia. Embora ambas características tenham sido estranhas ao pentecostalismo até o advento dos neopentecostais, o televangelismo e a bancada dos evangélicos são fenômenos que, grosso modo, passaram a ser associados a eles.<br />
<br />
Os neo-pentecostais também são responsáveis pela pulverização de denominações e pela criação de igrejas particulares, criadas por dissidentes de denominações maiores, que posteriormente também geram os seus dissidentes, que criarão outras igrejas particulares. Estas igrejas, compostas, inicialmente, pelo – ocasionalmente auto-denominado – pastor e um grupo reduzido de fiéis, respondem pela multiplicação de denominações, que são por vezes vizinhas com menos de cem metros de distância entre um templo e outro. Freqüentemente estas igrejas particulares não possuem tradição e seus pastores nem sempre possuem formação teológica considerável.<br />
<br />
De fato, a formação teológica parece ser algo desnecessário para os grupos neo-pentecostais. Tome-se o exemplo da Igreja Universal que chegou a manter um seminário, com curso de bacharelado em teologia de quatro anos, posteriormente fechado por sua inadequação aos objetivos da igreja. Nas palavras de Edir Macedo, em seu livro A libertação da teologia, tratava-se de “cristianismo de muita teoria e pouca prática; muita teologia, pouco poder; muitos argumentos, pouca manifestação; muitas palavras, pouca fé”.<br />
<br />
Além disso, a internet oferece uma variedade de cursos superficiais para a formação de pastores, a maioria deles não presencial e de curta duração. A ênfase dos estudos oferecidos também é bastante sintomática do modelo de cristianismo a ser praticado e difundido pelos pastores formados nestes cursos. Segundo João Fallet, em uma colaboração para a Folha de São Paulo, “uma frase presente na apostila do Curso de Formação de Pastor dá o tom do seu conteúdo: ‘A igreja é uma empresa, e uma empresa difícil de ser conduzida, porque o seu estoque são almas’. O curso convoca pastores a uma adaptação aos novos tempos: ‘As igrejas que não seguirem a cultura dos povos tendem a ficar vazias’”.<br />
<br />
O aspecto transformador do cristianismo que, segundo seus ditames mais antigos, deveria conduzir o mundo ao caminho da ética cristã, foi substituído por uma norma adaptativa, que subordina seus princípios às demandas, para o melhor atendimento ao público alvo da empresa, afinal: “o cliente tem sempre razão”. A impressão que fica é que, como no mundo dos negócios, qualquer coisa é possível para manter os lucros da empresa e o estoque de almas em alta.<br />
<br />
No entanto, é bom que se diga que esta não é a formação recebida por todos os pastores. A maioria dos homens que se torna líder de uma igreja das denominações históricas e mais tradicionais tem uma formação bastante sólida, em seminários que exigem aplicação e estudo por parte de seus alunos. Os cursos de teologia dos seminários evangélicos podem levar até cinco anos, tempo equivalente a qualquer graduação. Que o Bom Pastor nos conduza a todos de volta ao rebanho único de seu pastoreio, para que sejamos um como Ele e o Pai são um.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>Fazendo contas que não saem do Rosário</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Jun 2009 13:32:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensando em tempos]]></category>

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		<description><![CDATA[Segundo o antropólogo Clifford Gertz, a crença religiosa sempre estabelece um poder correlato a ela. Na medida em que um indivíduo acredita em algo, necessariamente passa a agir em consonância com sua crença. Daí o caráter normativo que as crenças sobrenaturais possuem. Na mesma medida em que normatizam, elas também revelam as características mais profundas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />Segundo o antropólogo Clifford Gertz, a crença religiosa sempre estabelece um poder correlato a ela. Na medida em que um indivíduo acredita em algo, necessariamente passa a agir em consonância com sua crença. Daí o caráter normativo que as crenças sobrenaturais possuem. Na mesma medida em que normatizam, elas também revelam as características mais profundas dos grupos sociais que, com suas normas, organizam. Isso vale tanto para o “new age” mais recente, quanto para as crenças mais ancestrais. As religiões se tornam assim um poderoso termômetro na investigação do comportamento e da visão que as sociedades tem do mundo que as cerca. No Brasil, país freqüentemente tido como profundamente religioso, a fé pode ser um instrumento dos mais eloqüentes para a compreensão da vida na nação que se arroga terra natal de ninguém menos que Deus.</p>
<p><span id="more-431"></span>No epicentro das investigações das ciências sociais sobre a religião no Brasil, se consolidou um modelo investigativo baseado no seu mercado religioso altamente competitivo. Recentemente, a mídia, instrumento privilegiado na concorrência pela maior fatia deste mercado, trouxe à baila um tema a muito presente nos círculos acadêmicos: o balanço entre o número de fiéis católicos e evangélicos. Os meios de comunicação estão veiculando, não inocentemente, com uma freqüência cada vez maior uma realidade já constatada há tempos pelos estudiosos. Assim, a análise pautada numa fé cega no mercado, no caso o mercado religioso, tem focado o problema em contas de adição e subtração. Embora um tanto simplista, a análise mercadológica da fé do brasileiro pode ser um bom ponto de partida para uma reflexão mais ampla. É preciso trilhar o caminho.</p>
<p>Os dados dos últimos censos do IBGE mostram que o brasileiro muda mais facilmente de credo religioso do que se casa, tem filhos, ingressa no mercado de trabalho ou aumenta a sua renda. No fundo, o que se vê é um êxodo de fiéis, migrados da Igreja Católica, grosso modo, rumo a outras denominações cristãs ou para se manter sem um compromisso religioso definido. A queda é substancial. Vai da quase totalidade dos brasileiros (95%) em 1940, para menos de três quartos do total, em 2000.  O que significa dizer que a Igreja Católica perdeu cerca de um quarto de seu rebanho, em pouco mais de meio século. Diante destes dados, os mais alarmistas aventam ser esta a derrocada da hegemonia Católica no cenário religioso brasileiro. Certos ou não, é daí que partem as principais obras sobre a vida religiosa do brasileiro.</p>
<p>Há algumas explicações interessantes para o fenômeno. A primeira, e mais sociológica, é a de que se trata, na verdade, do ocaso da sociedade tradicional e tradicionalista vinculada ao catolicismo no Brasil e na América Latina. Segundo esta análise, seria um processo inevitável para os elementos fundadores das sociedades tradicionais, quando em contato com forças transformadoras, caso do catolicismo latino-americano e do hinduísmo, por exemplo. Na Índia, a fuga de fiéis do hinduísmo seria paralela ao crescimento do islamismo, assim como na América Latina o escoamento estaria levando rumo às denominações evangélicas. Em ambos os casos, o que se observa, segundo esta perspectiva, é uma inevitável transformação.</p>
<p>No entanto, há indícios de que a questão não é tão simples assim. De fato, o decréscimo de católicos é evidente e parecia, até recentemente, ser inexorável. Mas seria o fim de um modelo tradicionalista de sociedade a única explicação possível? Antes do mais, é preciso reconhecer a diversidade de vertentes dentro da Igreja Católica e a considerável transformação pela qual passou na segunda metade do século XX, principalmente com as mudanças estabelecidas pelo Concílio Vaticano II. Se em tempos idos os sacerdotes freqüentemente contribuíam para a sustentação do que de mais tradicionalista havia em nossa sociedade, recentemente são vistos na frente de batalha por transformações.</p>
<p>Na esteira destas mudanças, as iniciativas sociais sistemáticas da Igreja freqüentemente atuam onde o Estado liberal é omisso. A título de exemplo pode se tomar a internacionalmente reconhecida e premiada Pastoral da Criança, que vem obtendo resultados fantásticos em termos nutricionais com a, agora famosa, multimistura. Além desta, há ainda a Pastoral Social e a Sociedade São Vicente de Paulo (vicentinos), atuando com a distribuição de alimentos às famílias que nada possuem. Em geral, os assistidos não têm condições de recolocação no mercado de trabalho, são a escória do sonho de mercado neoliberal. Seus arrimos, mulheres no mais das vezes, são muito velhos, muito doentes (não raro HIV positivo), não tiveram chance de qualificação profissional ou têm muitos filhos, todos quesitos que tornam virtualmente impossível para eles entrar no jogo competitivo por uma vaga no mercado de trabalho. Usando os termos daquele velho adágio, se não é possível “ensinar a pescar” ou enquanto aprendem, alguém tem que lhes dar o peixe para que não morram de fome. Num país dado à exclusão e com elevadas taxas de desemprego, estes seres humanos e suas proles estão condenados a depender do assistencialismo do Estado, que barganha parcas benesses por preciosos votos. Felizmente, as iniciativas de auxílio da Igreja, como as citadas, não requerem nem mesmo que o auxiliado seja católico.</p>
<p>De fato, a evasão de fiéis mostrada pelos números do IBGE leva, em grande medida, os católicos não praticantes, aqueles que não freqüentavam assiduamente a Igreja nem estavam engajados em movimentos ou pastorais. Embora haja baixas entre os mais envolvidos, estas são abissalmente menores. Daí pode se projetar que o Catolicismo vai perdendo a sua parte menos operante e efetiva e não o seu núcleo de sustento, que continua a se manter coeso dentro do seu rebanho, ainda formado por mais de 70% da população brasileira. As perdas, então, são sentidas mais profundamente no sentido mercadológico do termo, já que os remanescentes são sempre mais comprometidos com a instituição do que os que se foram. Isso explicaria o paradoxo entre os números dos censos e a freqüência nas missas, cada vez maior. Como dito antes, vão, no mais das vezes, os que possuem aquela fé tradicional, epidérmica e, freqüentemente, miscigenada, característica da religiosidade ibérica colonial.</p>
<p>É contra este modelo religioso, que a Igreja vem lutando mais recentemente. A ação pós-conciliar e a ameaça à sua posição hegemônica incentivaram uma nova cultura eclesiástica de aprofundamento doutrinário e teológico para os leigos. Estes, por sua vez, tem perguntas e exigências cada vez mais complexas a apresentar como contra partida à sua adesão. Destarte, iniciativas como Mater Ecclesiae, no Rio de Janeiro, os círculos bíblicos, os cursos de aprofundamento, entre outros, vêm fornecendo ao laicado católico uma formação com vistas à erradicação, a longo prazo, da fatia de “não praticantes”. O que significa que, mais cedo ou mais tarde, a sangria de fiéis pode ser estancada sem o uso de metodologias condenáveis.</p>
<p>Ocorre, pois, que o grupo que se desprende da Igreja Católica e vai aderir, ao menos em parte, a outras denominações cristãs representa não tanto a qualidade, mas o número. O que, em determinados locais, está transformando “ser evangélico” em opção religiosa hegemônica, como o catolicismo foi em todo o país até metade do século vinte. A hegemonia traz consigo a religiosidade epidérmica, sem aquele caráter mais profundo do conhecimento daquilo a que se está aderindo. A distância entre o que se ouve nas pregações e o que se acredita de fato, no varejo dos dias, começa a crescer. Talvez este seja um ônus pesado com o qual as igrejas evangélicas que desejam imbuir seus fiéis de um sentido mais profundo de evangelização terão de se haver num futuro não muito distante. O que significa dizer que em breve a expressão “evangélico, mas não praticante” poderá ser ouvida com uma freqüência cada vez maior, para pesar dos muitos pastores comprometidos com a efetiva evangelização da população.</p>
<p>Por outro lado, a Igreja Católica realmente têm muitos desafios e sérias preocupações para este novo século, que não passam por contas de pouca valia. Celibato sacerdotal, escândalos envolvendo sacerdotes pedófilos ou com outros distúrbios comportamentais, a formação espiritual e intelectual do clero, a acolhida dos que vivem as segundas núpcias, enfim, existe uma miríade de problemas e desafios que devem ocupar a mente das lideranças católicas muito mais do que o balanço numérico de fiéis.<br />
E mais. Caso mude seu discurso quanto à solidariedade e à justiça social, a bem dos fiéis que pode angariar, corre o sério risco de perder a sua identidade. Ainda que tal discurso não corresponda à totalidade de sua própria prática, desfigurá-lo seria sancionar o desvio. Caminho mais fácil, certamente, do que lutar para adequar a prática de seus membros, o clero inclusive, à norma. Mas a porta larga, afirma o Evangelho, conduz à perdição.</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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		<title>Sobre as razões de estudar História</title>
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		<pubDate>Sun, 10 May 2009 18:47:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>adlane</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há um livro muito interessante, escrito pelo historiador francês Marc Bloch, que tem seu início exatamente com a pergunta de uma criança ao pai historiador: “Mas, afinal, porque estudar história?”. Dentre as várias respostas teóricas estipuladas dentro da prisão nazista onde escrevia, por ter se envolvido com a resistência francesa à invasão alemã, Bloch diz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/etiqueta_engemann.jpg" alt="Pensando em tempos" />Há um livro muito interessante, escrito pelo historiador francês Marc Bloch, que tem seu início exatamente com a pergunta de uma criança ao pai historiador: “Mas, afinal, porque estudar história?”. Dentre as várias respostas teóricas estipuladas dentro da prisão nazista onde escrevia, por ter se envolvido com a resistência francesa à invasão alemã, Bloch diz que a História diverte, entretém.<br />
<br />
<span id="more-146"></span>De fato, poucas disciplinas acadêmicas podem se vangloriar de serem a segunda opção da maioria das pessoas. Quase todos, se não fizessem o que fazem, estudariam história. No entanto, há histórias e histórias, nem todas as histórias são escritas do mesmo modo, ainda que sobre o mesmo tema. É possível escrever várias histórias sobre a vinda da família real portuguesa para o Brasil, sobre a Era Vargas, sobre o concílio de Trento, ou sobre qualquer tema que se pense. Esta é uma das virtudes da história, nunca se esgota, tem um potencial ilimitado de renovação.<br />
<br />
No entanto, a história que mais fascina pelo sua capacidade narrativa e de produzir enredos é exatamente a forma combatida por Bloch, que se divertia com uma outra forma de escrever história. No século XIX, quando a história se consolidou como disciplina acadêmica a principal forma de escrevê-la era em função dos fatos, os chamados fatos históricos. Não se percebia que isso implicava numa escolha do próprio historiador, que se dava o direito de determinar o que era e o que não era fato histórico. Como a produção das pesquisas era quase totalmente patrocinada pelo Estado, a história nasce como uma espécie de biografia da nação, criando a “história oficial”. A escolha de grandes nomes e datas comemorativas, com batalhas e atos governamentais, compunha a essência da história chamada de positivista. Durante muito tempo a história que aprendemos nos bancos escolares e que causava pânico aos que padeciam de uma memória pouco privilegiada era fundamentalmente positivista, centrada em fatos políticos e, quando muito, econômicos.<br />
<br />
O paradoxo é que esta história narrativa, que nos dá tão pouco a conhecer sobre o passado, é a que mais fascina aqueles que não precisam fazer provas sobre o assunto e podem se dar ao luxo de ter um conhecimento pontual da história e se vangloriar dele eternamente. Lembro-me de um aluno que sabia o nome de todos os membros da família real quando desembarcou no Brasil e dizia que isso era a “verdadeira história”. Talvez o fosse para ele, por ser a que conhecia.<br />
De fato, nada havia em nossos livros escolares que nos informasse a cerca dos mitos e crenças de nossos antepassados. Nenhuma linha sequer sobre as festas e os amores, o humor, a culinária, a infância, as formas de solidariedade entre grupos pobres, os métodos de catequese, os sentimentos, ou qualquer das outras coisas tantas que compõem a nossa vida para além da política e da economia.<br />
<br />
Isso nos remete a função específica da história na vida de um país. Curiosamente, nenhum estudante nunca me questionou o fato de termos uma história do Brasil e outra Geral no currículo escolar, essa divisão sempre foi tão naturalizada por que nos acompanha desde os primeiros dias nas carteiras das classes escolares. O estudo de uma história do Brasil foi estipulado desde o século XIX para desenvolver nos jovens estudantes o sentimento de nacionalidade, a identidade de pertencimento à comunidade nacional, com símbolos em comum, unidade territorial e governo central a obedecer. A história também tem essa capacidade de criar vínculos entre os vivos e os mortos. Aprendemos desde cedo a venerar nossos heróis da pátria. Quando eu era pequeno havia uma coleção chamada Vultos da Pátria, que trazia pequenas biografias dos personagens considerados relevantes para a nação. A crença de que a história pode nos condenar ou nos redimir ao condenar ou redimir os que nós consideramos vinculados a nós por ela é tão poderosa que atinge mesmo os mais letrados.<br />
<br />
Essa capacidade de gerar vínculos marcou particularmente a produção da história da Igreja. Por meio desta identidade histórica nos comportamos como se pudéssemos nos vangloriar dos santos, das comunidades cristãs da era apostólica e dos bons momentos da instituição, devendo, por outro lado, nos envergonhar dos comportamentos condenáveis, como se cúmplices fossemos. Certamente por isso, tentamos jogar para a história a responsabilidade de explicar as falhas de pessoas que sequer conhecemos, tentando torná-las mais palatáveis aos nossos desafetos de hoje, que não hesitam em lançar mão de acusações a partir da história contra nós. O problema é que isso cria uma reflexão sobre o passado refém de justificá-lo ou condená-lo e muito pouco comprometida em compreendê-lo. A tentação do maniqueísmo historiográfico que divide a história em bons e maus, nos rouba a diversão de que Marc Bloch falava. Não a diversão um tanto enfadonha de percorrer o mesmo enredo e a mesma narrativa por vezes sem fim, mas a diversão de compreender o ser humano, criado a imagem e semelhança de seu Criador e, por isso mesmo, múltiplo, diverso e encantador. Essa é a diversão que buscarei oferecer aos leitores destas modestas linhas, isso é o que deve nos entreter nessa coluna.<br />
<br />
A História da Igreja, em particular a produzida no Brasil, está, em grande medida, parada no século XIX, os temas se cristalizaram, as explicações se consolidaram e nada deve ser mudado. A obrigação de nos redimir pelo passado torna a história, para o caso dos católicos, uma disciplina dogmática como a teologia moral, a Cristologia ou a hermenêutica. Isso, somado ao grande domínio de historiadores marxista nas universidades nas décadas de 1960 a 1980, produziu um enorme divórcio entre a história produzida na academia e a que era produzida como história da Igreja. Esse divórcio fez com que os que escrevem a história da Igreja não se beneficiassem dos diversos avanços teóricos e metodológicos gerados pelos anos de pesquisa em diversos temas, inclusive os ligados à Igreja. Muitos historiadores acadêmicos se dedicaram a pesquisar elementos da história da Igreja sem o nefasto intuito de fazê-la pagar pelos erros do passado. É grande a admiração dos meus alunos no seminário quando mostro textos produzidos por historiadores acadêmicos sobre um dos temas mais espinhosos para os católicos: a Inquisição. Textos elaborados a partir do estudo dos processos inquisitoriais e dos demais documentos produzidos pelo Santo Ofício, por tanto, com rigor e método, sem o pressuposto de condenar ou absolver, mas com a intenção de compreender.<br />
<br />
Agora podemos voltar a pergunta fundamental deste artigo: “Mas afinal, para que estudar história?” Acho que está mais ou menos claro para o leitor que o estudo da história tem tanto haver com o presente quanto com o passado. São as preocupações do presente que levam ao estudo do passado e o modelam. Nesta coluna tentarei aplicar isso o mais explicitamente possível, mesclando conhecimentos do passado com reflexões a cerca dos problemas do presente. Não acredito que a história se repete. Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes: o rio muda seu curso, as águas são outras e você também muda. Mas as sociedades e culturas guardam tradições e são essas tradições que nos conectam á história e nos permitem tirar proveito dela.<br />
</p>
<blockquote><p><img class="alignleft" src="http://www.pnsfatima.org.br/wp-content/i/colunistas/carlos_img_site.jpg" alt="Carlos Engemann" /><strong>Carlos Engemann</strong> possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro &#8220;De Laços e de Nós&#8221;.<br />
<strong>E-mail</strong>: cenge mann@bol.com.br</p></blockquote>
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