10 de janeiro de 2010
O músico Renato Russo, em uma de suas músicas, disse que “há tempos nem os santos tem ao certo a medida da maldade”, para descrever o estado de banalização do mal e da violência nos dias de hoje. E de fato, por paradoxal que pareça, são os santos os que tem a melhor medida da maldade do mundo, por serem, em geral, suas principais vítimas. A opção cristã de santidade o fez assim. No Antigo Testamento a santidade era a separação, aquilo que estava reservado para poucos, era o próximo de Deus e o distante dos homens comuns. O Templo de Jerusalém é a materialização deste conceito. Há um crescente de santidade que vai do pátio dos gentios, na parte mais externa, passando pelo átrio das mulheres (para as mulheres israelitas), pelo átrio dos israelitas (só para os homens), chegando ao Santuário (reservado aos sacerdotes) e, finalmente, o Santo dos Santos, o núcleo do Santuário onde só o sumo sacerdote podia entrar em algumas ocasiões do ano.
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10 de dezembro de 2009
Quando se fala de revolução a primeira coisa que se pensa é em algum tipo de revolução socialista, como a soviética ou a cubana. Porém, há uma outra revolução que pode ser considerada, de certo modo, a mãe das idéias revolucionárias socialistas: é a revolução industrial. As transformações geradas pela produção industrializada foram tantas e tão profundas que mudaram radicalmente a face da sociedade. Nenhuma sociedade que tenha passado pelo processo de industrialização o fez incólume.
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10 de novembro de 2009
Eu acho particularmente interessante o questionamento que persiste pelos últimos dois séculos sobre o que nos diferencia dos outros animais. O livro do Gêneses nos conta que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, descrevendo com isso que o ser humano é ontologicamente dessemelhante das demais criaturas. Por outro lado, a genética nos coloca um outro aspecto: os grandes símios – gorilas, chipanzés e orangotangos – são geneticamente quase idênticos a nós. Os chipanzés chegam a ter mais de 98% de semelhança com o nosso DNA. Não obstante a isso, parece óbvio que os humanos foram dotados com algo mais que não está presente na natureza dos animais em geral.
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10 de outubro de 2009
A história, assim como a vida da gente, possui situações de labirinto. Alguns de nós, vez ou outra, são lançados numa situação daquelas que, por mais que busque a saída, sempre dá de cara com uma parede? Um caminho promissor após o outro levam sempre a becos sem saída. Nesses momentos acho que parecemos um pouco com Abraão, a quem o Criador pediu o filho dileto em sacrifício. Também vamos nós sacrificando esperança atrás de esperança, até que eis que surge, em geral sabe lá Deus de onde, uma brecha nas paredes estreitas do labirinto, um facho de luz que guia os passos pesados rumo a uma nova esperança de saída, até que por fim esta se apresenta a nossa frente, providenciada pelo Pai, assim como o cordeiro para o sacrifício de Abraão. Parece que ouvimos o anjo a nos ordenar com voz firme: “Não toques mais nas tuas esperanças, chega de sacrificá-las.” Na história temos situações assim. Vejamos como se dá.
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10 de setembro de 2009
O Homem é o único animal que conta o tempo e, por conseguinte, possui história. Na busca por um sentido para me dedicar ao estudo da história, um professor da faculdade me forneceu essa poderosa pista: embora a história também sirva para apartar os homens uns dos outros, ela também nos dá o sentido de Humanidade, nos faz conhecer a coletividade humana. Esta afirmação me acompanhou por anos a fio e quando fui desenvolver um pequeno estudo sobre a transcendência, outra característica exclusivamente humana, me dei conta de estas estão intimamente ligadas. As crenças dos grupos humanos animistas fundamentavam-se em duas esferas de espíritos: os das manifestações naturais e os dos antepassados. A consciência da existência de antepassados nos remete à história ou a uma proto-história, gerando ao mesmo tempo dois sentidos, o de humanidade, já que antepassados comuns nos atam uns aos outros para além da morte, e o de uma vida após a morte.
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10 de agosto de 2009
A chamada “teologia da prosperidade” é tão eficiente que seduz não apenas fiéis, mas líderes católicos também caem nas suas graças. Hoje, já é possível ver, aqui e acolá, padres pregando a prosperidade como sinal da graça de Deus. No entanto, o discurso da prosperidade tem outros aspectos importantes, além da sedução. A bem das aparências, não se trata de uma novidade. A “teologia da prosperidade” não é nova em seu âmago. O modelo relacional dos pagãos e das religiões animistas com suas divindades é extremamente semelhante à pregação da prosperidade. O centro da relação com o divino é regido, como tudo na vida dos homens, pelo princípio da dádiva (dom e contra-dom).
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10 de julho de 2009
Curiosamente, segundo os últimos sensos, o grupo religioso que mais cresce é dos que não possui filiação religiosa. A segunda opção religiosa com crescimento digno de nota é das igrejas evangélicas. Este conjunto responde pelo grosso dos fiéis que se evadiram do catolicismo. Porém, com este crescimento, segundo Marcelo Néri, em seu trabalho Retrato das Religiões no Brasil, um aparente paradoxo sociológico se desenha em nossa sociedade. Em seu livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber, um dos pais da sociologia clássica, mostra a intrincada relação entre a nova ética religiosa, trazida por certos credos protestantes, e a consolidação do que ele chamou de espírito capitalista na Europa e nos Estados Unidos. Segundo Weber, o desenvolvimento da nova ética, promovida por uma pedagogia religiosa, que havia libertado o fiel da culpa quanto ao acúmulo de riqueza, conduzia à prosperidade de seus praticantes.
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10 de junho de 2009
Segundo o antropólogo Clifford Gertz, a crença religiosa sempre estabelece um poder correlato a ela. Na medida em que um indivíduo acredita em algo, necessariamente passa a agir em consonância com sua crença. Daí o caráter normativo que as crenças sobrenaturais possuem. Na mesma medida em que normatizam, elas também revelam as características mais profundas dos grupos sociais que, com suas normas, organizam. Isso vale tanto para o “new age” mais recente, quanto para as crenças mais ancestrais. As religiões se tornam assim um poderoso termômetro na investigação do comportamento e da visão que as sociedades tem do mundo que as cerca. No Brasil, país freqüentemente tido como profundamente religioso, a fé pode ser um instrumento dos mais eloqüentes para a compreensão da vida na nação que se arroga terra natal de ninguém menos que Deus.
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10 de maio de 2009
Há um livro muito interessante, escrito pelo historiador francês Marc Bloch, que tem seu início exatamente com a pergunta de uma criança ao pai historiador: “Mas, afinal, porque estudar história?”. Dentre as várias respostas teóricas estipuladas dentro da prisão nazista onde escrevia, por ter se envolvido com a resistência francesa à invasão alemã, Bloch diz que a História diverte, entretém.
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