10 de janeiro de 2010 A Santidade e a Medida da Maldade
O músico Renato Russo, em uma de suas músicas, disse que “há tempos nem os santos tem ao certo a medida da maldade”, para descrever o estado de banalização do mal e da violência nos dias de hoje. E de fato, por paradoxal que pareça, são os santos os que tem a melhor medida da maldade do mundo, por serem, em geral, suas principais vítimas. A opção cristã de santidade o fez assim. No Antigo Testamento a santidade era a separação, aquilo que estava reservado para poucos, era o próximo de Deus e o distante dos homens comuns. O Templo de Jerusalém é a materialização deste conceito. Há um crescente de santidade que vai do pátio dos gentios, na parte mais externa, passando pelo átrio das mulheres (para as mulheres israelitas), pelo átrio dos israelitas (só para os homens), chegando ao Santuário (reservado aos sacerdotes) e, finalmente, o Santo dos Santos, o núcleo do Santuário onde só o sumo sacerdote podia entrar em algumas ocasiões do ano.
Quando Jesus recomenda que sejamos santos como o Pai é santo e, mais ainda, quando o Evangelho narra que o véu do templo é rasgado de alto a baixo no momento de sua morte, um novo conceito de santidade é forjado. Um conceito mais amplo e includente, segundo o qual o santo não mais é aquele separado do mundo, mas o que nele está imerso e imiscuído como o sal da terra e o fermento na massa, para “Cristificá-lo”.
Os primeiros cristãos absorveram de forma magnífica esta nova forma de ser santo. Há um texto dos primeiros anos do cristianismo, de autoria desconhecida, que de tão belo e pleno de sabedoria foi incorporado à Liturgia das Horas: a Epístola a Diogneto. Nela se lê uma descrição da imagem que os cristãos do segundo século faziam de si mesmos. Eis o que diz o capítulo 5:
Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; (…)
Os cristãos estão em meio ao mundo, usam o mesmo idioma e, basicamente, os mesmos costumes. Destarte, vivem nas mesmas cidades e poderiam passar desapercebidos no meio da multidão, não fosse o fato de possuírem um modo de vida admirável. Paradoxalmente, parte da essência deste modo de vida está na graça de perceber que todas as pátrias são passagens, onde são forasteiros, onde, não obstante o tempo de sua permanência, são apenas estrangeiros, provisoriamente diluídos no mundo para operar a transformação deste.
A idéia de uma santidade que se mistura e transforma é firmemente presente no início do capítulo 6: “Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo.” Estar junto ao mundo e transformá-lo pelo seu testemunho admirável eis o que os primeiros cristãos, representados pelo autor da Epístola, pensavam ser sua missão no mundo.
Temos relatos deste testemunho admirável dos primeiros santos exatamente quando adquiriram a medida exata da maldade do poder presente em qualquer grande sistema político. Os incontáveis mártires sacrificados pela necessidade de entretenimento e de reafirmação da autoridade divina dos imperadores foram semente e adubo para o germinar do que os romanos chamavam de “seita maléfica”. Para estes, o martírio dos cristãos representava a repressão à diferença, o exemplo contra a desobediência civil e, me parece o mais perverso do processo todo, entretenimento para a massa. Era um meio de manter com os cidadãos de Roma menos favorecidos pelas conquistas uma relação amistosa, evitando que a plebe se rebelasse contra seus patronos. Eram tempos de “Panem et Circenses”.
Os cristãos entendiam o martírio de forma bem diferente, era uma forma corajosa de converter a perversidade de seus algozes em testemunho e redenção. Os mártires e confessores, os que padeciam penas por assumirem o cristianismo, entendiam-se muito próximos do Reino dos Céus, tão próximos que quer vivessem, quer morressem, seu destino estava indelevelmente ligado a Cristo. Destarte, o sofrimento não era, de modo algum, resultado do abandono divino, antes era sinal da chance de manifestarem a fé inabalável na cidadania celeste e na proximidade da pátria vindoura.
Modernamente, apesar de ainda termos mártires a nos indicar que a causa de Deus pode trazer caminhos dolorosos de se trilhar, às vezes fico com a impressão de que perdemos a medida do preço a pagar por ser cristão. Ainda que hoje, ao menos no Ocidente, o Estado não mate mais ninguém por se declarar cristão, parece que não há mais sacrifícios a fazer para se assumir a ética de Cristo. Fui a uma formatura dia desses em que os oradores não paravam de falar em ética. Era a ética profissional para lá, a ética cristã para cá, mesmo os que costumeiramente agem de maneira sórdida, se punham a falar em ética até não poder mais, jogando todo o peso da lisura nos ombros dos jovens formandos.
Além de um pouco irritado com a coisa toda, fiquei pensando como banalizamos o termo “ética”, como se ela não tivesse um custo. Falamos como se a dor de assumir escolhas certas fosse nula, como se o caminho da ética, e em especial da ética cristã, fosse o mais calmo e plácido a ser trilhado. Trata-se da fé, com muita freqüência, como se a senda da crença trouxesse favores materiais e não dilemas morais perante o mal, como se não houvesse necessidade de sacrificar nada em prol das escolhas que fazemos.
Em certo sentido, acho que muitos de nós se entendem um pouco na contramão do que diz a Epístola a Diogneto, estamos no mundo nos acomodando a ele. Pode ser que estejamos tentando evitar a nossa cota de martírio, algo que, no fundo, a maioria de nós nunca entendeu plenamente. Criamos para nós uma visão de Deus que é muito confortável. Não que Deus não seja bondoso e benigno, eu que o diga, Ele me fez estar em sala de aula apenas quinze dias após uma delicada cirurgia de extração de tumor cerebral, que durou 8 horas. Mas, da bondade de Deus a um Deus previdente, para quem o sofrimento é sinal de desgraça – no sentido literal da palavra: falta da graça – é um caminho que não sei se deve ser percorrido.
O salmo 22 diz que “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte nada temerei”. Acho que muitos de nós se acostumaram com a idéia de um Deus que sequer nos permitiria adentrar em uma topografia que pudesse ser chamada de vale da sombra da morte. No entanto, por vários motivos que nos escapam o completo entendimento, Deus permite que trilhemos o caminho que passa entre as montanhas sobre as quais se deita a morte. Passamos por estas situações inclusive por escolhermos a ética de Cristo. Vejamos o exemplo de alguns mártires, para os quais a sombra da morte não era apenas uma metáfora: as flexas para São Sebastião, a espada marroquina para São Berardo e seus companheiros, o punhal do homem que tentava estuprá-la para Santa Maria Goretti ou a morte por inanição em Aushiwtz para Maximiliano Colbe, foram os vales onde a morte lançou sua sombra.
Nesses momentos, em que temos de seguir firmes sem ver o horizonte, nem ver o sol, já que a morte se interpôs entre nós e a luz, lançando sua sombra nas terras pelas quais caminhamos, é a fé na presença do Pai, o grande sol que brilha além da morte, o que pode nos sustentar. Jesus passou como ninguém por esta trilha, esteve no fundo deste vale, atravessou-o em sua mais longa extensão e com dolorosa morte pairando sobre sua cabeça. Suas pegadas ainda estão marcadas apontando o caminho e encorajando os que parecem ter se perdido.
Que tenhamos a força do Ressuscitado em nós, para, quando o vale da sombra da morte se colocar a nossa frente, em especial para quando isso acontecer por termos trilhado o caminho da Verdade perante a maldade, possamos com passo firme e seguro, sabendo que além das nuvens escuras da morte (física, psicológica ou moral) que está a lançar sombra sobre nós, brilha o glorioso Sol da Eternidade, que nos ampara em meio às tempestades e nos sustenta nas dificuldades. Foi por isso que os mártires antigos e modernos não se desesperaram diante das dificuldades e da dor, e há de ser assim conosco, ainda que tenhamos de tomar conhecimento da exata medida da maldade.
Carlos Engemann possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro “De Laços e de Nós”.
E-mail: cenge mann@bol.com.br









Carlos Engemann possui graduação com distinção acadêmica Magna cum Lauda em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000), mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002) e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é professor da Universidade Salgado de Oliveira e professor titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, antropologia histórica e métodos quantitativos. É autor do livro “De Laços e de Nós”.